Solenidade de São Pedro e São Paulo

“Eis os santos que, vivendo neste mundo, plantaram a Igreja, regando-a com seu sangue. Beberam do cálice do Senhor e se tornaram amigos de Deus.”

(Ant. de Entrada da Missa da Solenidade de S. Pedro e S. Paulo)

 

É assim, de maneira tão profunda e, ao mesmo tempo, singular, que a Igreja reconhece estes dois homens tão importantes para a nossa fé. Em uma de suas célebres homilias, o pregador da Casa Pontifícia, o capuchinho Frei Raniero Cantalamessa, dessa forma, aprofunda: “Celebramos hoje o martírio dos apóstolos Pedro e Paulo. Mortos na perseguição de Nero [...]. Através destes dois apóstolos, a Igreja celebra a apostolicidade: Creio na Igreja una, santa, católica, apostólica [...] São Pedro e São Paulo são os últimos dois anéis de uma corrente que nos une ao próprio Cristo. Em certo sentido, nossa comunhão com Jesus passa através deles. Nós celebramos, por isso, a festa dos ‘fundadores’ de nossa fé, dos antepassados do povo cristão”[i]

Como é belo reconhecer no testemunho destes homens e na vivência radical de suas vidas, o entregar-se inteiramente a Jesus Cristo. É apaixonante ver nas narrativas de sua existência esse deixar-se moldar no discipulado. Certamente não podemos aqui, neste momento, querer aprofundar de maneira densa a vida destes homens. Mas de forma abreviada, podemos destacar uma precisa biografia.

São Pedro era homem simples, um pescador de Betsaida (Lc 5, 3; Jo 1, 44). Foi do próprio Cristo que recebeu o convite para se tornar um discípulo: “Vinde após mim; eu vos farei pescadores de homens” (Mc 1,17). O próprio Jesus lhe muda o nome e o chama de Cefas, “Pedra” (Mt 16, 17-19; Jo 21, 15-17). De maneira extraordinária, segue o Cristo da Galileia à Judeia. É uma das testemunhas que vê o sepulcro vazio (Jo 20,6). Após a ascensão de Jesus, ele assume a direção da comunidade cristã (At 1, 15; 15, 7). Em suas viagens vai à Palestina, depois segue para Antioquia e, por fim, chega a Roma. Nesta cidade, ele cumpre plenamente a missão de ser “pedra angular”, reúne judeus e pagãos num só edifício e plenifica a sua missão com o próprio martírio.[ii]

São Paulo nasceu em Tarso, na Cilícia (At 22, 3). Era Judeu e, provavelmente aos 12-13 anos, deixou Tarso e transferiu-se para Jerusalém, para ser educado aos pés do Rabino Gamaliel, segundo as mais rígidas normas do farisaísmo, adquirindo um grande zelo pela Torá mosaica (Gl 1, 14; Fl 3, 5-6; At 22, 3; 23, 6; 26, 5). Com essa base tão profunda da ortodoxia que aprendera em Jerusalém, foi um dos grandes perseguidores da fé cristã, que ele considerava um risco, uma total ameaça à identidade judaica, à verdadeira ortodoxia dos seus pais. Entende-se aí o motivo que, tão ferozmente, fê-lo perseguidor da “Igreja de Deus” (1Cor 15, 9; Gl 1, 13; Fl 3, 6)[iii]. No entanto, é no caminho de Damasco que acontece a sua conversão, quando escuta a expressão que mudou, radicalmente, sua vida: “Saulo, Saulo, por que me persegues?” (At 9, 4). Paulo faz inúmeras viagens anunciando o Kerigma, muitas cartas lhe são atribuídas no Novo Testamento. E, assim como Pedro, consuma a sua missão em Roma, com o derramamento de seu sangue.

Pedro tem uma função importante: ser o timoneiro da barca que é a Igreja. Não é uma função honorífica ou recompensa de algum mérito, mas a função de apascentar as ovelhas (Jo 21, 15ss), ser esse sinal de visibilidade e perenidade na Igreja de Cristo. Por outro lado, Paulo deixa-nos um testemunho importante de espiritualidade que perpassa mais de 20 séculos, fundamentada na fé e no amor a Jesus Cristo.

Podemos concluir essa concisa reflexão, portanto, com as mesmas palavras contidas no prefácio da missa própria para esta solenidade: “Pedro, o primeiro a proclamar a fé, fundou a Igreja primitiva sobre a herança de Israel. Paulo, mestre e doutor das nações, anunciou-lhes o Evangelho da Salvação. Por diferentes meios, os dois congregaram a única família de Cristo e, unidos pela coroa do martírio, recebem hoje, por toda a terra, igual veneração.”[iv]

Que o exemplo destes Apóstolos nos ajude a permanecer fiéis à Igreja, nossa Mãe e Mestra. E que saibamos acolher as verdades proclamadas pelos seus pastores, no cotidiano de nossas vidas.

 

[i]  CANTALAMESSA, Raniero. O Verbo se Fez Carne: Reflexão sobre a Palavra de Deus – Anos A, B, C. São Paulo: Ave-Maria, 3. ed. 2013.

[ii] Missal, Dominical: Missal da Assembleia Cristã. 13ª reimpressão. São Paulo: Paulus, 2016.

[iii] BENTO XVI.  Oração e Santidade: Catequese ao Povo de Deus. V.II.  São Paulo: Molokai, 2018. Trad. oficial da  Santa Sé Revisada p. 358-359.

[iv] MISSAL, Romano. 2ª Edição Típica para o Brasil. São Paulo, 2013. p. 609.

 

Marcus Vinícius Tertuliano Ribeiro
Seminarista da Diocese da Campanha.
Graduado em Filosofia pelo Instituto Filosófico São José em Campanha - MG.
Graduado em Teologia pela Faculdade Católica em Pouso Alegre - MG.