A Eucaristia manifestada pela sensibilidade feminina

A Solenidade de Corpus Christi reúne muitas histórias, desde que foi instituída pelo Papa Urbano IV e inserida no calendário litúrgico, no ano de 1264.

O primeiro desejo de que a Eucaristia fosse celebrada fora do Tríduo Pascal, quando estamos imersos na participação dos mistérios da paixão, morte e ressurreição do Filho de Deus, brotou do coração de Santa Juliana de Cornillon (c.1191/92-1258), religiosa que viveu em um pequeno povoado no interior da região que hoje compõe a Bélgica. Não é por acaso que tal revelação tenha sido oferecida a uma religiosa, de um humilde convento. Antes, manifestou o desejo divino de ser festejado sobre o altar do mundo[1], em cada capelinha, na mais distante localidade, e, não somente aos olhos dos grandes homens, reunidos em monumentais basílicas, mas também junto ao povo simples e sincero na sua fé. É um Dom para todas as pessoas, sem distinção. Papa Francisco afirma isso com ênfase: “A Eucaristia não é um prêmio para os bons, mas remédio para os fracos”[2]. Por isso, antes de lançarmos mão do ofício litúrgico composto por Santo Tomás de Aquino para tal solenidade, precisamos conhecer e nos aproximar dos relatos orais da personagem feminina, transmitidos ao longo do tempo, sedimentados silenciosamente na memória da comunidade cristã.

Que bonita constatação e quão valioso aprendizado para todas e todos nós: foi na sensibilidade feminina que Deus se manifestou com tanto ardor. Papa Bento XVI, em atitude exemplar de uma Igreja que corrige seus erros e se (res)significa ao longo da História, dedicou uma série de catequeses às santas mulheres[3] que, por meio de suas visões místicas, contribuíram para que a Igreja de seu tempo fosse fortalecida no caminho do Evangelho e na prática do amor. Segundo ele, “antes de Juliana, teólogos insignes explicaram ali o valor supremo do Sacramento da Eucaristia e, ainda em Liège, havia grupos femininos generosamente dedicados ao culto eucarístico e à comunhão fervorosa. Orientadas por sacerdotes exemplares, elas viviam juntas, dedicando-se à oração e às obras de caridade”[4].

Essa mesma sensibilidade e delicadeza está presente nas tradições renovadas, ano após ano, com a preparação dos vestidos de anjinhos que povoam toda a escadaria da Matriz para forrar o chão com pétalas de flores, quando o padre passa conduzindo o Santíssimo Sacramento, depois de pisar os tapetes coloridos pela cidade, em procissão. Costureiras, bordadeiras, floristas, muitas as mulheres, que, exercendo diferentes ofícios[5], anonimamente se dedicaram, nesses 170 anos de paróquia, a cuidar das alfaias, arranjos de flores e preparação das suas famílias para os momentos devocionais, fortalecidos com a instituição do dia santo como feriado nacional, a partir de 1961. O documento da Congregação para a Educação Católica, publicado em 2019, ressalta a presença feminina na educação pela sua forte “capacidade de doação para o outro”[6]. E, reitera a importância da sua atuação, da seguinte forma:

Não é por acaso, na realidade, que «onde quer que se revele necessário um trabalho de formação, pode-se constatar a imensa disponibilidade das mulheres a dedicarem-se às relações humanas, especialmente em prol dos mais débeis e indefesos. Nesse trabalho, elas realizam uma forma de maternidade afetiva, cultural e espiritual, de valor realmente inestimável, pela incidência que tem no desenvolvimento da pessoa e no futuro da sociedade. E como não lembrar aqui o testemunho de tantas mulheres católicas e de tantas Congregações religiosas femininas, que nos vários continentes, fizeram da educação, especialmente dos meninos e meninas, o seu principal serviço[7].

Dessa forma, os enfeites das ruas em nossa paróquia nos ajudam a não esquecer da inspiração de Santa Juliana, que sofreu resistência até que sua mensagem fosse acolhida. Festa popular, por excelência, ela cumpre com um papel fortemente religioso, mas também sociocultural, já que não faz distinção de pessoas, por sexo ou idade. Todos podem se doar um pouco, reforçando que a partilha do pão também é partilha da vida.

Quem dera nossa alegria ao encarar os desafios cotidianos fosse a mesma de quando nos esforçamos para preparar o tapete mais bonito para o Santíssimo Sacramento passar. Talvez por isso a solenidade de Corpus Christi seja, senão aquele momento efêmero e perene, ao mesmo tempo, que mais ativa a nossa memória afetiva, lembrando-nos como é possível viver juntos, de forma criativa e lúdica, deixando-nos contagiar pela Beleza de Deus, inspirada na Alegria do Evangelho[8]. Papa Francisco, em sua Carta Apostólica, Laudato Si - que completou cinco anos há poucos dias - de maneira inspirada nos diz: “A criação encontra a sua maior elevação na Eucaristia”. E, um pouco mais à frente, conclui que “a Eucaristia é, por si mesma, um ato de amor cósmico”[9]. Dessa forma, permanecemos profundamente conectados ao que se passou desde que se celebrou essa festa pela primeira vez. Que esse convite feito pelo Santo Padre ecoe em nossos corações com força e saibamos transformar esse dia em um encontro feliz e pleno de adoração, deixando-nos penetrar e abraçar pelo Filho encarnado, presente na Hóstia Santa.

 

Em homenagem à “Dona Maria do Lencinho”

 

[1] Termo utilizado por Bento XVI na homilia da Solenidade de Corpus Christi, na Basílica de São João de Latrão, em 15 de junho de 2006.

[2] Afirmação do Papa para o programa “Padre nostro”, exibido na noite da quarta-feira, dia 22 de novembro de 2017, pela TV2000 dos bispos italianos.

[3] Inclusive, nesse momento, elevou a mística Santa Hildegarda de Bingen (1098-1179), à condição de doutora da Igreja. Suas revelações sobre a criação do mundo e a visão do Cristo, enquanto homem cósmico, estão em profunda conexão com todo o conhecimento filosófico e teológico sobre a natureza divino-humana.

[4] Bento XVI na audiência geral, na Praça de São Pedro, realizada no dia 17 de novembro de 2010. Disponível em: <http://w2.vatican.va/content/benedict-xvi/pt/audiences/2010/documents/hf_ben-xvi_aud_20101117.html> Acesso em: 18 mai 2020.

[5]O gênio feminino é necessário em todas as expressões da vida social”. In: Compêndio da Doutrina Social da Igreja, parágrafo 295. Disponível em: <http://www.vatican.va/roman_curia/pontifical_councils/justpeace/documents/rc_pc_justpeace_doc_20060526_compendio-dott-soc_po.html#As%20mulheres%20e%20o%20direito%20ao%20trabalho> Acesso em: 18 mai 2020.

[6]  ≪HOMEM E MULHER OS CRIOU≫ Para uma via de diálogo sobre a questão do gender na educação. Vaticano: Congregação para a Educação Católica, 2019, parágrafo 17. Disponível em: <http://www.educatio.va/content/dam/cec/Documenti/19_1000_PORTOGHESE.pdf> Acesso em: 19 mai 2020. 

[7] Idem, parágrafo 18.

[8] Os papas Paulo VI, João Paulo II, Bento XVI reforçaram em seus pontificados a amizade entre a Igreja e as/os artistas. Papa Francisco também deseja essa proximidade, sentida em sua Exortação Apostólica: Evangelli Gaudim (2013), ao tocar na «mística popular», vivenciada nas expressões populares de oração, fraternidade, justiça, de luta e de festa (parágrafo 197). Disponível em: <http://www.vatican.va/content/francesco/pt/apost_exhortations/documents/papa-francesco_esortazione-ap_20131124_evangelii-gaudium.html> Acesso em: 19 mai 2020.

[9] Francisco. Laudato Si’: sobre o cuidado da casa comum. São Paulo: Paulinas, 2015, p. 187.

 

Francislei Lima da Silva